quarta-feira, 24 de março de 2010

UM CIRCO CHAMADO ISABELLA

MUITO EMBORA SEJA UM TEXTO ANTIGO, VALE A PENA PUBLICAR COM O DEVIDO CRÉDITO.


Na hora do almoço, vem o jornal da televisão. Não sei se se come a frio. Às vezes, desce fervendo. Em algumas ocasiões, escorrega indigesto. Ultimamente, a toada é uma só. A apresentadora faz uma pausa. Em seguida-com ar sombrio-anuncia: agora, as novidades do caso Isabella. Não tolero e refaço a chamada: agora, com os senhores, mais uma atração do grande circo Isabella.
E a coisa não muda. Desde a morte trágica da garota, o enredo macabro não sofre alteração. Gritos histéricos, desespero de repórteres, carros em altas velocidades e viaturas com uivos alucinantes. E mais: caras rotas, bocas murchas e lágrimas a granel. A Polícia vê muito. O promotor pouco enxerga. Advogados mauricinhos ensinam moral. As autoridades só falam depois de concluídas as investigações. E abrem a tagarela em todos os canais. Aparecem sem querer. O promotor fica mudo. Invoca segredo de justiça. Mas, não escapa da Globo. Acaba por revelar aquilo que não deve. Finalmente, condena antecipadamente.
A mulher do ex virou celebridade. Já é figurinha carimbada da inconseqüente telinha. Só falta posar pelada para aquela revista. Curioso: essa Ana Carolina tem sorrisos demais e lágrimas de menos. A mãe da filha aparece em todas. Na praça, na emissora dos Marinhos e na missa do astro padre.
E o povo? Ávido de pão, circo e sangue, não sai da calçada. Ninguém há o que fazer, tanto em casa quanto no trabalho. Essa gente passa o dia na rua. Não importa aonde. Na capital, interior ou porta da delegacia. Uma figura vem de longe para participar da festa. Viajou mais de 400 km. E todos se divertem em mais um drama dos tempos de hoje. Os personagens menores cantam o enfadonho parabéns. Depois, digerem aquele bolo de aniversário com cheiro de catacumba.
Acendem-se os holofotes. A TV vai mostrar as últimas, ao vivo e em cores. A turba se agita. Clama por Justiça. Ameaça bater, esganar, matar. O burburinho é intenso. A indignação pinta em todos esses rostos desconhecidos, com os olhos nas câmeras. As luzes se apagam. Passaram-se apenas alguns segundos. Tudo volta ao normal. Cada qual procura o seu canto. Na próxima edição, recomeça o teatro. A palhaçada.
O pai e a outra Carolina levantam o Ibope. É fantástico. A mulher chora copiosamente. Ele sorri à sorrelfa. O jornalista sussurra, pois esteve na escola base. O que provoca o soluço dela? Será saudade “dela” ou medo da masmorra lúgubre? Já o riso maroto é enigmático e tem “n” motivações. Pode ser o prazer global, idiotice latente, lembrança das brincadeiras paternas, a certeza da inocência ou remorso do ato.
Enquanto isso, alguém matou Isabella. E, daí? Esse detalhe não tem a menor importância. Valem o furo do jornal, a audiência da televisão, o sucesso da revista semanal e o sensacionalismo do rádio. O mais é efêmero. Isabella liderava a audiência, até que um terremoto mixuruca roubou a cena.
Nunca, na história desse país, a imprensa se portou tão mal. Nunca, na história desse país, o povo foi tão hipócrita. Nunca, na história desse país, a instituição família se amesquinhou tanto. Nunca, na história desse país, um escrevinhador se fantasiou de cronista para fazer o papel de famoso bobo do picadeiro.


Fernando Silva
Publicado no Recanto das Letras em 26/04/2008
Código do texto: T962664

terça-feira, 6 de maio de 2008

VALE QUALQUER ABSURDO



Sou advogado há 26 anos e, diariamente, ouço e vejo uma série de absurdos. A intenção não é a colocação pessoal e subjetiva do que vem a ser um absurdo, mas sim, sob uma visão mais técnica e legal. Exemplificando: Sabemos que o Tribunal do Júri é composto por sete pessoas leigas em direito, que decidirão, no mínimo, 12 anos da liberdade de alguém. Considerando que os jurados, como "povo", estão afetos às "manipulações" de apinião exercidas pela mídia, pergunta-se:
Seria um absurdo, em nome da chamada liberdade de expressão permitir que a mídia "debata o tema" simulando situações e chamando profissionais alheios ao processo para comentar e dar opiniões pessoais ao invés de somente informar. Não seria uma forma de induzir a população, inclusive os jurados, a um "julgamento" antecipado.
Gostaria não só de obter comentários a este tópico, como também, que fossem eviadas sugestões de temas polemicos e "absurdos"