MUITO EMBORA SEJA UM TEXTO ANTIGO, VALE A PENA PUBLICAR COM O DEVIDO CRÉDITO.
Na hora do almoço, vem o jornal da televisão. Não sei se se come a frio. Às vezes, desce fervendo. Em algumas ocasiões, escorrega indigesto. Ultimamente, a toada é uma só. A apresentadora faz uma pausa. Em seguida-com ar sombrio-anuncia: agora, as novidades do caso Isabella. Não tolero e refaço a chamada: agora, com os senhores, mais uma atração do grande circo Isabella.
E a coisa não muda. Desde a morte trágica da garota, o enredo macabro não sofre alteração. Gritos histéricos, desespero de repórteres, carros em altas velocidades e viaturas com uivos alucinantes. E mais: caras rotas, bocas murchas e lágrimas a granel. A Polícia vê muito. O promotor pouco enxerga. Advogados mauricinhos ensinam moral. As autoridades só falam depois de concluídas as investigações. E abrem a tagarela em todos os canais. Aparecem sem querer. O promotor fica mudo. Invoca segredo de justiça. Mas, não escapa da Globo. Acaba por revelar aquilo que não deve. Finalmente, condena antecipadamente.
A mulher do ex virou celebridade. Já é figurinha carimbada da inconseqüente telinha. Só falta posar pelada para aquela revista. Curioso: essa Ana Carolina tem sorrisos demais e lágrimas de menos. A mãe da filha aparece em todas. Na praça, na emissora dos Marinhos e na missa do astro padre.
E o povo? Ávido de pão, circo e sangue, não sai da calçada. Ninguém há o que fazer, tanto em casa quanto no trabalho. Essa gente passa o dia na rua. Não importa aonde. Na capital, interior ou porta da delegacia. Uma figura vem de longe para participar da festa. Viajou mais de 400 km. E todos se divertem em mais um drama dos tempos de hoje. Os personagens menores cantam o enfadonho parabéns. Depois, digerem aquele bolo de aniversário com cheiro de catacumba.
Acendem-se os holofotes. A TV vai mostrar as últimas, ao vivo e em cores. A turba se agita. Clama por Justiça. Ameaça bater, esganar, matar. O burburinho é intenso. A indignação pinta em todos esses rostos desconhecidos, com os olhos nas câmeras. As luzes se apagam. Passaram-se apenas alguns segundos. Tudo volta ao normal. Cada qual procura o seu canto. Na próxima edição, recomeça o teatro. A palhaçada.
O pai e a outra Carolina levantam o Ibope. É fantástico. A mulher chora copiosamente. Ele sorri à sorrelfa. O jornalista sussurra, pois esteve na escola base. O que provoca o soluço dela? Será saudade “dela” ou medo da masmorra lúgubre? Já o riso maroto é enigmático e tem “n” motivações. Pode ser o prazer global, idiotice latente, lembrança das brincadeiras paternas, a certeza da inocência ou remorso do ato.
Enquanto isso, alguém matou Isabella. E, daí? Esse detalhe não tem a menor importância. Valem o furo do jornal, a audiência da televisão, o sucesso da revista semanal e o sensacionalismo do rádio. O mais é efêmero. Isabella liderava a audiência, até que um terremoto mixuruca roubou a cena.
Nunca, na história desse país, a imprensa se portou tão mal. Nunca, na história desse país, o povo foi tão hipócrita. Nunca, na história desse país, a instituição família se amesquinhou tanto. Nunca, na história desse país, um escrevinhador se fantasiou de cronista para fazer o papel de famoso bobo do picadeiro.
Fernando Silva
Publicado no Recanto das Letras em 26/04/2008
Código do texto: T962664
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